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segunda-feira, 1 de junho de 2009

"A Roubalheira", Alice Vieira


Todas as pessoas têm sempre muitas teorias explicativas, sem margem para dúvidas, das causas que levam ao afastamento da leitura. A primeira, mas a primeira mesmo (aquela que é mesmo tão primeira, tão primeira, mas tão primeira que até chateia de ser tão primeira - como diriam os Gatos Fedorentos) é o preço dos livros. Aqui d’el rei que as criancinhas não lêem porque os livros custam uma fortuna. Fossem os livros mais baratitos e vocês iam ver como as crianças (e os adultos) não faziam outra coisa senão ler de manhã à noite.
Mas ao preço a que os livros estão...
Pois é. Toda a gente já ouviu este discurso, toda a gente já invocou, numa ocasião ou outra, esta desculpa. Esfarrapada.
Esfarrapadíssima.
Porque é evidente que é tudo uma questão de prioridades: será sempre caro tudo aquilo de que não sinto falta.
Há muita outra coisa, bem mais cara do que um livro, e de cujo preço ninguém se queixa. Nunca, em tempo algum, um pai (ou mãe) de família se chegou junto de mim protestando contra o preço, por exemplo, de uma consola, de um jogo de vídeo, de um iPod, de um telemóvel dos que tiram fotografias e fazem downloads de músicas e mais não sei quantas maravilhas. Isto já para não falar de coisas bem mais banais como, por exemplo, um par de ténis com rodinhas fluorescentes, um bilhete para o futebol ou para um concerto de qualquer banda. Para tudo isso que, nestes estranhos tempos, as crianças exigem, o dinheiro parece chegar sempre. O pior são os livros. Os livros é que estragam tudo. Uma chatice, os livros.
Foi isso, de certeza, o que pensou também aquele digníssimo pai de família que, nesta última Feira do Livro de Lisboa, diante do stande da Caminho, rapou de um papel que trazia no bolso e leu o título que lá escrevera.
«É para o meu filho», disse.
A empregada do stande foi buscar o livro e, tentando ser amável, apontou para mim e explicou ao senhor que eu era a autora do dito livro, coisa que não pareceu interessá-lo por aí além.
«Se quiser um autógrafo...», acrescentou a moça.
O homem olhou para mim, encolheu os ombros e lá me estendeu o livro, repetindo que era para o filho, que ele nem sabia que livro era aquele, ele dispensava leituras, mas o filho é que lhe tinha pedido, o filho é que até tinha escrito o nome no papel. E pronto, por isso é que ele ali estava. O que a gente não faz por um filho, caramba...
E enquanto eu me esforçava por escrever alguma coisa ligeiramente mais original do que o fatal «com um abraço», que diabo!, quem tinha um pai daqueles merecia um pouco mais de atenção - ele ia continuando a cantilena, e agora estávamos, evidentemente, no preço dos livros, que era uma roubalheira, uma pouca vergonha, como é que um livro tão pequeno como aquele tinha aquele preço, «Olhe, a lista telefónica é muito maior e é de borla!», e ria muito alto com a graça que estava a ter.
«Espero que ele goste», disse eu, entregando-lhe o livro quase a pedir desculpa de ter escrito um livro tão pequeno para a próxima havia de me esforçar por chegar aos calcanhares da lista.
Nova risada e novo encolher de ombros, «Se calhar nem gosta, ele também não vai muito à bola com os livros, mas que é que quer, a professora lá na escola é que mandou comprar, e você sabe como são agora os professores: mandam comprar toda a m... que aparece!»
No interior do stande há um silêncio a mascarar as gargalhadas que todos sufocamos com dificuldade, enquanto ele lá vai, alameda acima, resmungando contra a leitura, o preço dos livros, os professores, a roubalheira, a pouca vergonha.


Vieira, Alice - Pezinhos de Coentrada. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2006, pp.114-116.



A propósito da FEIRA DO LIVRO...
MAIS PALAVRAS PARA QUÊ?...

"PEÇAS DE MUSEU", Alice Vieira





Acabo de sofrer uma das maiores humilhações da minha vida. Ainda por cima aqui no meu bairro, as pessoas a olharem para mim com aquele sorriso de meia boca, género «coitadinha, não liguem».
Ia eu, muito pacificamente pela rua acima, deitar umas cartas no marco do correio, quando oiço estalar uma gargalhada a acompanhar o vozeirão do meu amigo Fernando que ali, em altos berros, para toda a gente ouvir, me reduzia à insignificância de ainda precisar de usar um objecto tão obsoleto e anacrónico (a expressão, obviamente, é dele). Olhei em roda à procura do tal objecto, que eu não descobria em parte nenhuma, mas ele não parava de falar e de rir, que há não sei quanto tempo não via uma pessoa servir-se daquilo, que se tivesse ali uma máquina fotográfica até registava o momento, se eu não sabia que havia uma coisa chamada computador e outra coisa chamada e-mail. E ria. E ria. E as pessoas passavam, olhavam, e riam com ele, e eu ali, finalmente a perceber que era do pobre marco do correio que ele falava.
Lembrei-me, então, de outra vez em que uma coisa semelhante se tinha passado comigo, embora não tão ostensivamente humilhante, coisa bem mais pacata e silenciosa. Estava nessa altura de férias no Luso, a tentar escrever alguma coisa à mesa do café. Faltou-me a tinta e rapo de um tinteiro pequeno que tinha acabado de comprar e, logo ali, encho a caneta. É então que uma das empregadas se especa à minha frente, de mãos espalmadas na barriga, e murmura: «Jasus! Desde o tempo da minha escola primária que eu não via uma pes¬soa a fazer isso!»
Pois é. Eu escrevo cartas. À mão. Com caneta. Com tinta. E – o que ainda torna tudo muito pior – gosto muito. E tenho muita pena que esse prazer se esteja a perder. Às vezes penso que o progresso e os avanços (tecnológicos e não só) estão a fazer desaparecer alguns dos grandes prazeres da nossa vida. Para já, a enorme loucura da pressa com que sempre andamos fez-nos perder o prazer de ter tempo para perder tempo.
Come-se em pé no balcão da esquina, e a correr, porque atrás de nós estão mais dois ou três à espera do lugar.
E o pão que comemos não sabe a pão, feito à pressão naquelas casas que substituíram as honradas padarias e se chamam «boutiques do pão».
E a maçã que comemos não sabe a maçã, feita em estufas, toda do mesmo tamanho e com aquele aspecto que até parece que saiu da história da Branca de Neve, e onde nenhum bicho entra, porque o bicho é esperto e nós não.
E depois há o telemóvel para resolvermos negócios enquanto estamos a atravessar o passeio, para não perdermos alguns minutos, e quando nos enfiamos no comboio nem sequer olhamos para a paisagem porque ligamos imediatamente o nosso PC portátil, e fazemos da carruagem a extensão do nosso escritório, perdendo todo o prazer da viagem.
E escrever cartas. O prazer de tocar no papel, de sentir o aparo deslizar, de saborear as palavras que se vão alinhando, o prazer de escrever cartas de amor ridículas, cartas de adeus desesperadas, cartas banais da pequena intriga familiar, cartas enormes como as que escrevíamos na nossa adolescência, quando os amigos nos faziam tanta falta e os dias eram desmesuradamente grandes.
E olho para as prateleiras da estante, com aqueles volumes de correspondência de escritores, que sabe tão bem ler, e penso que tudo isso vai acabar também, e as cartas, e os selos, e os bilhetes postais, e os marcos-de-
-correio-de-portinha-ao-centro, e as canetas e os tinteiros vão transformar-se muito rapidamente em peças de museu para mostrarmos aos netos dizendo «a avó ainda usou isto», e eles a olharem para nós e a não acreditar.

Vieira, Alice - Pezinhos de Coentrada.
Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2006, pp56-58.