segunda-feira, 1 de junho de 2009

"A Roubalheira", Alice Vieira


Todas as pessoas têm sempre muitas teorias explicativas, sem margem para dúvidas, das causas que levam ao afastamento da leitura. A primeira, mas a primeira mesmo (aquela que é mesmo tão primeira, tão primeira, mas tão primeira que até chateia de ser tão primeira - como diriam os Gatos Fedorentos) é o preço dos livros. Aqui d’el rei que as criancinhas não lêem porque os livros custam uma fortuna. Fossem os livros mais baratitos e vocês iam ver como as crianças (e os adultos) não faziam outra coisa senão ler de manhã à noite.
Mas ao preço a que os livros estão...
Pois é. Toda a gente já ouviu este discurso, toda a gente já invocou, numa ocasião ou outra, esta desculpa. Esfarrapada.
Esfarrapadíssima.
Porque é evidente que é tudo uma questão de prioridades: será sempre caro tudo aquilo de que não sinto falta.
Há muita outra coisa, bem mais cara do que um livro, e de cujo preço ninguém se queixa. Nunca, em tempo algum, um pai (ou mãe) de família se chegou junto de mim protestando contra o preço, por exemplo, de uma consola, de um jogo de vídeo, de um iPod, de um telemóvel dos que tiram fotografias e fazem downloads de músicas e mais não sei quantas maravilhas. Isto já para não falar de coisas bem mais banais como, por exemplo, um par de ténis com rodinhas fluorescentes, um bilhete para o futebol ou para um concerto de qualquer banda. Para tudo isso que, nestes estranhos tempos, as crianças exigem, o dinheiro parece chegar sempre. O pior são os livros. Os livros é que estragam tudo. Uma chatice, os livros.
Foi isso, de certeza, o que pensou também aquele digníssimo pai de família que, nesta última Feira do Livro de Lisboa, diante do stande da Caminho, rapou de um papel que trazia no bolso e leu o título que lá escrevera.
«É para o meu filho», disse.
A empregada do stande foi buscar o livro e, tentando ser amável, apontou para mim e explicou ao senhor que eu era a autora do dito livro, coisa que não pareceu interessá-lo por aí além.
«Se quiser um autógrafo...», acrescentou a moça.
O homem olhou para mim, encolheu os ombros e lá me estendeu o livro, repetindo que era para o filho, que ele nem sabia que livro era aquele, ele dispensava leituras, mas o filho é que lhe tinha pedido, o filho é que até tinha escrito o nome no papel. E pronto, por isso é que ele ali estava. O que a gente não faz por um filho, caramba...
E enquanto eu me esforçava por escrever alguma coisa ligeiramente mais original do que o fatal «com um abraço», que diabo!, quem tinha um pai daqueles merecia um pouco mais de atenção - ele ia continuando a cantilena, e agora estávamos, evidentemente, no preço dos livros, que era uma roubalheira, uma pouca vergonha, como é que um livro tão pequeno como aquele tinha aquele preço, «Olhe, a lista telefónica é muito maior e é de borla!», e ria muito alto com a graça que estava a ter.
«Espero que ele goste», disse eu, entregando-lhe o livro quase a pedir desculpa de ter escrito um livro tão pequeno para a próxima havia de me esforçar por chegar aos calcanhares da lista.
Nova risada e novo encolher de ombros, «Se calhar nem gosta, ele também não vai muito à bola com os livros, mas que é que quer, a professora lá na escola é que mandou comprar, e você sabe como são agora os professores: mandam comprar toda a m... que aparece!»
No interior do stande há um silêncio a mascarar as gargalhadas que todos sufocamos com dificuldade, enquanto ele lá vai, alameda acima, resmungando contra a leitura, o preço dos livros, os professores, a roubalheira, a pouca vergonha.


Vieira, Alice - Pezinhos de Coentrada. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2006, pp.114-116.



A propósito da FEIRA DO LIVRO...
MAIS PALAVRAS PARA QUÊ?...

Dicionários Incomuns II...


ARANHA

PRESSÁGIOS DIVERSOS • «De manhã, a aranha traz má hora; ao meio-dia, traz valia; a qualquer momento, traz presente; à noite, traz esperança». O adágio não impede, mesmo chegada a noite, que sintamos uma impressão desagradável quando vemos uma aranha galopar pelos azulejos brancos da casa de banho. Na Idade Média, porém, era muito apre­ciada a presença doméstica deste animal, auxiliar eficaz na eliminação dos insectos.


A ARANHA TECE • Quando vemos uma aranha, devemos observar bem em que sentido se desloca antes de nos precipitarmos em busca de uma vassoura. É verdade que o presságio geral é desfavorável, pois indica que alguém está a urdir uma conspiração contra nós (simbolicamente, tecer uma teia na qual nos quer enredar). Mas também nos pode informar sobre os nossos próximos sucessos financeiros. Acontece o mesmo se, suspensa da teia por cima da nossa cabeça, a aranha desce até nós ou trepa pelo nosso corpo.
JESUS E MAOMÉ ESCONDIDOS POR DETRÁS DA TEIA • Consta que foi uma teia de aranha que permitiu esconder o menino Jesus dos soldados de Herodes, encarregados de suprimir todos os recém-nascidos — pretendendo Herodes livrar-se de um potencial «rival»... mas, unicamente na lenda cristã, pois a Bíblia não refere tal pormenor. Um relato muçulmano conta, do mesmo modo, que Maomé foi salvo por uma teia de aranha; tecida providencialmente à entrada da caverna onde se refugiara, esta teia convenceu os perseguidores do profeta de que ninguém ali entrava há muito tempo.
QUE O NAMORADO ANDA A MAQUINAR • As jovens americanas não apreciam mesmo nada descobrir uma teia de aranha ao canto da porta de entrada de casa, pois isso significa que o seu boyfriend anda a tentar seduzir outra rapariga.
CONTRA AS DOENÇAS • Outrora, era muito frequente misturar uma aranha seca e triturada, ou simplesmente esmagada, às diversas drogas utilizadas para tratar do paludismo, da coqueluche e da asma. A teia também podia servir para fabricar compressas destinadas a estancar hemorragias.
COMO AMULETO • Um punhado de aranhas vivas, penduradas ao pescoço num pequeno saco, atraem acontecimentos favoráveis.
pp.28-29


GATO
“Não há homem que tanto odeie no mundo
Os gatos como eu de um ódio profundo.
Odeio os olhos, o focinho e o olhar.
Vendo-os, fujo para outro lugar (...)”

RONSARD


UM ANIMAL OUTRORA VENERADO • O gato encontra-se na convergência de crenças por vezes contraditórias, à imagem, dir-se-ia, do carácter muitas vezes volúvel do animal. Os Egípcios veneravam-no e atribuíam-lhe sete vidas. Parece ter sido o cristianismo quem se empenhou em inverter a representação, desejoso de apagar as marcas das religiões politeístas tradicionais nos tempos em que as combatia.
GATO PRETO • Este gato, de uma cor que evoca a escuridão e inspira circunspecção sofre de duas «taras» conjuntas que lhe valeram muitas perseguições. Na Espanha da Inquisição, suprimiam-se os gatos pretos à nascença, receando a acusação de feitiçaria; e, na França de Henrique IV, era costume queimar os gatos desta cor, na Praça de Grève, durante festas de S. João, numa enorme fogueira. Ainda hoje há pessoas que temem encontrar um gato preto; mas, no nosso tempo já não se assiste a essa prática bárbara de esconjuro que consistia em mergulhar o pobre animal em água a ferver. Notemos ainda que, de um modo geral, com o tempo, o gato preto passou a gozar de muito melhor reputação. Diz-se mesmo que atrai dinheiro e sorte e evita os incêndios nas casas que o acolhem. Se nos cruzarmos com um gato preto, devemos formular m voto. Um jogador de lotaria deve esfregar uma cautela no pêlo do gato.(…)
um gato que se preocupa com a higiene • Um gato que, com a pata, limpa o focinho com particular insistência, anuncia uma visita inesperada. Este gesto fornece ainda informações meteorológicas, predizendo chuva — ou tempestade, para os marinheiros — se a pata passar por detrás da orelha. Também devemos contar com precipitação se o gato lamber a cauda.
O GATO E OS ESPÍRITOS • O olhar fascinante do gato, a sua notável acuidade, inspiraram a ideia de que era capaz de ver coisas decorrentes da extra-lucidez, como os fantasmas e espíritos, com os quais, segundo consta, é capaz de manter uma certa familiaridade. Quando alguém acabava de morrer, punha-se um gato na câmara mortuária, a fim de que o animal «verificasse» se a alma se tinha verdadeiramente desprendido do corpo.
GATO QUE ESPIRRA • O espirro de um gato doméstico constitui um sinal benéfico; mas três espirros consecutivos indicam uma ameaça de gripe para toda a família. No campo, um espirro anuncia chuva.
pp.137-138



PORCO
MAU AUGÚRIO • Encontrar um porco numa esquina é um presságio nefasto; inversamente, devemos regozijar-nos quando se trata de uma porca acompanhada da sua prole.
A GAMELA DO PORCO • faz muito bem às dores de garganta e à papeira (basta esfregar a garganta no rebordo desta pia). O torcicolo também desaparece, utilizando o mesmo método, desde que reste um pouco de leite no fundo da gamela.
p.226 (Texto adaptado)


TREVO
O TREVO DE QUATRO FOLHAS • Talvez seja o mais comum dos amuletos. Podemos contar com um benefício por folha: fama, riqueza, amor, prosperidade. Para que o seu efeito seja real, deve ser colhido na primeira noite de lua nova. (…)
p. 258

Laurioz, Hubert - Dicionário de Supersições.
Lisboa: Círculo de Leitores, 1999, pp.28-29,137-138,226,258.

Dicionários incomuns I...





ORQUÍDEA



Esta bela planta possui raízes formadas por dois tubérculos simétricos. Acharam os gregos, que lhe deram o nome, que esses tubérculos se assemelhavam aos testículos dos animais e, por isso, lhe chamaram orkhis (testículos).
p. 185



ROSÁRIO


A palavra tem como tema, facilmente evidente, o nome da flor, «rosa» (como, por exemplo, em «romaria, romeu, romagem, romeiro, etc., o elemento principal é a cidade santa a que os peregrinos se dirigiam). As rosas de «rosário» são, digamos, «reais» — chamou-se à Virgem Maria «rosa mística» e na Idade Média as suas imagens surgiram com uma coroa de rosas. A «coroa» de preces recebeu por isso o nome de rosário (do latim rosarium, lugar onde se plantam rosas), devoção que só surgiu na religião católica no início do século XIII.
p.209

TERTÚLIA
Tertúlia deriva do costume que se introduziu em Espanha, no tempo de Filipe IV, de se reunir a gente ilustrada da corte para ler, estudar e discutir as obras de Tertuliano.
Tão exagerada era a paixão por este célebre escritor chamado Quinto Septímio Florente Tertuliano, nascido em Cartago no ano de 160 a. C. e falecido em 222, que os sacerdotes se acreditavam só pelo facto de o citarem nas reuniões e no púlpito.
Umas vezes chamavam-lhe simplesmente Tertuliano, outras «três vezes Túlio», ou ainda três vezes superior a «Marco Túlio Cícero».Daqui proveio, e breve se expandiu, o costume de se chamar «tertúlias» às sociedades e reuniões de bom tom das casas particulares, nas quais se falava, lia ou comentava as obras de Tertuliano.
pp. 222-223



"Tertúlia Literária", Álvaro Altozano




Neves, Orlando - Dicionário da Origem das Palavras.
Lisboa: Círculo de Leitores,2001, pp. 185, 209, 222-223.


In Machado, Ana Maria (org.) – O TESOURO DAS VIRTUDES PARA AS CRIANÇAS. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1999, p.27.

O exotismo e o calor tropical do Brasil, ao serviço de um episódio potuguês lendário... Dom Marcos Barbosa (1915-1997) em harmonia total com o traço de Thais Quintella de Linhares(1970-)...

"Vento", Jorge Sousa Braga


Por mais que tente, o vento
Não consegue adormecer
Se não tiver nada para ler.
Seja uma folha de tília,
De bambu ou buganvília.


É por isso que o vento
Arrasta as folhas consigo,
Até encontrar um abrigo,
Onde possa adormecer.
- Arrastou até a folha,
Onde eu estava a escrever!

Braga, Jorge Sousa – Herbário. Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p.42.

"Xilo", Rosa Lobato de Faria

A flor do algodoeiro,
que também se chama xilo,
é bonita e tem fulgor,
é amarela e tem estilo.

Quando vês o algodão,
de tantas utilidades,
tão dócil na tua mão
sem caprichos nem vaidades
(quer na roupa, quer em rama)
não pensas que a sua flor
já foi bandeira de cor
vistosa como uma chama.



Faria, Rosa Lobato de – ABC das Flores e dos Frutos.
Porto: Ed. Asa, 2002, pp.44-45,



Esta obra é fresca e divertida, mas também aqui aparecem umas ilustrações fabulosas! Desta vez, o ilustrador é Chico, outro dos nossos preferidos...

"Aurora Boreal", António Gedeão



Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.

António Gedeão

"Polegarzinho", João Paulo Seara Cardoso








Quando a inovação do texto tradicional e a beleza da ilustração se cruzam assim, é impossível resistir! Júlio Vanzeler é, sem dúvida, um dos nossos ilustradores preferidos!...

"Pele de Piolho", Adolfo Coelho (rec.)



"Era um rei que tinha uma filha que costumava catá-lo e um dia encontrou-lhe um piolho na cabeça e disse: « Meu pai e senhor,Vossa Majestade tem aqui um piolho.» Então o rei respondeu: «Deixa-o ficar, pois quero que ele cresça.»
Cresceu tanto o piolho que já não cabia na cabeça do rei; e então este ordenou que se matasse e que da pele se fizesse um tambor. Assim se fez, e então a princesa disse ao rei que mandasse reunir a corte toda, e toda a gente que ele quisesse, e aquele que adivinhasse de que tinha sido feito o tambor seria seu esposo. Ora o rei andava com muitos desejos de casar a filha, e por isso aceitou logo a proposta, e deu ordens para que se reunisse muita gente; e aquele que adivinhasse de que tinha sido feito o tambor casaria com a sua filha. Havia um fidalgo na corte de quem a princesa muito gostava e que também se apresentou para adivinhar, e quando já estavam muitos homens reunidos, chegou o rei e a princesa e perguntaram: «De que é feito este tambor?» e mostraram o tambor que era levado por um velho criado do rei. A princesa então aproximou-se do fidalgo que amava e disse-lhe: «Pele de piolho.», mas ele nada ouviu, e o criado que conduzia o tambor, como estivesse atrás da princesa, ouviu o que ela dizia; e então aproximou-se do rei e disse: «Saiba, Vossa Majestade, que este tambor foi feito da pele de um piolho.» Então o rei respondeu logo: «Adivinhaste, e como palavra de rei não volta atrás, casarás com a princesa.» Então, ela toda lavada de lágrimas, chegou-se ao pé do velho e disse-lhe:

Se eu casar contigo, velho,
Há-de ser com tal tenção
De eu dormir em boa cama,
E tu, velho, nesse chão.
E tu, velho, se falares,
Hás-de levar com um bordão.
Eu hei-de comer pão alvo,
E tu, velho, de rolão,
E se tu, velho, falares,
Hás-de levar com um bordão.

Em vista disto, o velho não quis casar com a princesa, e disse-lhe que ela casasse com o fidalgo; e assim se fez.

(Coimbra)

Coelho, Adolfo - Contos Populares Portugueses.
Lisboa: Pub. D. Quixote,2001, pp. 196-197

"A Crise das Marias", Manuel Ribeiro

"Os Pequenos Torcionários", Pedro Mexia

HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA – PERIODIZAÇÃO LITERÁRIA (ABREVIADA) I

LITERATURA MEDIEVAL (SÉCULO XII A XV)
1º PERÍODO: OS TROVADORES


CANTIGA DA GARVAIA

No mundo nom me sei parelha,
mentre me for como me vai;
ca ja moiro por vós, e ai!,
mia senhor branca e vermelha,
queredes que vos retraia
quando vos eu vi em saia?
Mao dia me levantei,
que vos entom nom vi feia!

E, mia senhor, des aquelha,
me foi a mi mui mal di' ai!
E vós, filha de Dom Pai
Moniz, en bem vos semelha
d' haver eu por vós garvaia?
Pois eu, mia senhor, d' alfaia
nunca de vós houve nem hei
valia d'ua correia!
Paio Soares Taveiroos*






CANTIGA DA GARVAIA(adaptação livre)

No mundo não conheço outro como eu,
enquanto me acontecer como me acontece:
porque já morro por vós, e ai!,
minha senhora branca e vermelha,
quereis que vos censure
quando vos eu vi em saia? (em corpo bem feito)
Mau dia me levantei
que vos então não vi feia!

E, minha senhora, desde então,
passei muitos maus dias, ai!
E vós, filha de D. Paio
Moniz, parece-vos bem
ter eu de vós uma garvaia? (manto)
Pois eu, minha senhora, de presente
nunca de vós tive nem tenho
nem a mais pequenina coisa.

Paio Soares Taveiroos



* PAIO SOARES TAVEIROOS (ou Taveirós), trovador da primeira metade do século XIII, provinha da pequena nobreza galega. A Cantiga da Garvaia, uma cantiga de amor galhofeira, foi muito tempo considerada como sendo a primeira obra poética em galaico-português.



Jogral tocando viola de arco e jovem acompanhando com adufe (“Cancioneiro da Ajuda”, Lisboa)












AI DONA FEA! FOSTES-VOS QUEIXAR

Ai dona fea! Fostes-vos queixar
Porque vos nunca louv' en meu trobar
Mais ora quero fazer un cantar
En que vos loarei toda via;
E vedes como vos quero bar:
Dona fea, velha e sandia!

Dona fea! Se Deus me pardon!
E pois avedes tan gran coraçon
Que vos eu loe, en esta razon,
Vos quero já loar toda via;
E vedes qual será a loaçon:
Dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei
En meu trobar, pêro muito trobei;
Mais ora já un bon cantar farei
En que vos loarei toda via;
E direi-vos como vos loarei:
Dona fea, velha e sandia!

João Garcia de Guilhade*

Vocabulário

Fea - feia
Trobar - poemas,trovas
Loar - louvar, cantar
Loaçon - louvor
Sandia - maluca
Toda via – porém


* JOÃO GARCIA DE GUILHADE (século XIII) trovador português, nascido em Milhazes (Barcelos), desenvolveu as suas composições poéticas em meados do século XIII. Esta cantiga da sua autoria é de Escárnio.



Falcoeiro a Cavalo e Dama(Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa)



AI FLORES, AI FLORES DO VERDE PINO

Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo!
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mh á jurado!
Ai Deus, e u é?

-Vós me preguntades polo voss'amigo,
e eu ben vos digo que é san' e vivo:
Ai Deus, e u é?

-Vós me preguntades polo voss'amado,
e eu ben vos digo que é viv' e sano:
Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é san' e vivo
e seerá vosc' ant' o prazo sa'ido:
Ai Deus, e u é?

E eu ben vos digo que é viv' e sano
e seerá vosc' ant’ o prazo passado:
Ai Deus, e u é?



D. DINIS (1261- 1325), o Rei Trovador

"Quando Jesus nasceu", Pedro Strecht

Quando Jesus nasceu, contam que era Rei para aqueles lados um senhor muito mau, que mandava tudo torto, bebia canja de lagartixa verde e comia tripas de gato cheias de azeite velho. Além do mais, andava sempre com um cão vesgo e cabeçudo, que cada vez que ladrava fazia sair um «pum». Blagh!!! Que porcaria, nem parecia nada vida de Rei... Pois era assim mesmo, e isto era porque esse Rei que se chamava Herodes, era mau de meter medo. Tinha uma carantonha pior que uma caraça de bruxa no Carnaval, e vejam bem... era tão mal-educado que nunca lavava os dentes e tinha as unhas das mãos muito grandes, só para poder tirar macacos do nariz a toda a velocidade. Que nojo, só de pensar! E como era pequenino, porque reis assim nunca chegam a grandes, calçava sapatos de tacão mais altos que dois tijolos juntos, enfeitados com quilos de ouro, para não levantar voo com o seu inchaço soprado.

Ora, «grandes» assim também não gostam mesmo nada de pequenos, porque é como elefantes a fugirem de ratos. Ou seja, no fundo e a sério, o Rei Herodes tinha cá um medo de perder a sua importância toda, que nem vos digo! E como medos são coisas que só existem nas nossas cabeças, na do Rei havia um muito grande e que dizia assim:
“Se nascer por aí algum menino pequeno, que possa ser, um dia, mais importante do que eu, ainda deixo é de ser Rei!... Que medo!”. E do seu armário secreto de medos e sustos, este era bem o pri¬meiro que sairia, se lá fôssemos abrir uma gaveta.

Strecht, Pedro. Recados do Tempo do Menino Jesus.
Lisboa: Assírio & Alvim, 1998.

"Mensagem de Deus aos signos", Martin Schulz


" ... E naquela manhã Deus compareceu perante as suas doze crianças e plantou a semente da vida humana em cada uma delas. Uma por uma, cada criança deu um passo em frente para receber o Dom e a Função que lhe cabia."

A ti, CARNEIRO, dou-te a primeira semente, para que tenhas a honra de plantá-la. Por cada semente, que plantares, outro milhão de sementes se multiplicarão nas tuas mãos. Não terás tempo de ver a semente crescer, pois tudo o que plantares reproduzir-se-á cada vez mais e mais para de novo ser plantado. Tu serás o primeiro a plantar o solo da mente humana levando a MINHA IDEIA. Mas não te cabe a ti alimentar e cuidar dessa IDEIA, nem questioná-la. A tua vida é acção e a única acção, que te atribuo, é a de dar o passo inicial para tornar os homens conscientes da Criação. Por este trabalho, Eu concedo-te a virtude do Respeito por si mesmo.

TOURO, eu concedo-te o poder de transformar a semente em substância grande, o que requer paciência, pois tem que terminar tudo quanto foi começado, para que as sementes não sejam desperdiçadas pelo vento. Não deves, assim, questionar, para conseguires a execução do que te peço. Para isso Eu concedo-te o Dom da Força. Trata de usá-lo sabiamente.

A ti, GÉMEOS, Eu forneço perguntas sem respostas, para que possas levar a todos um entendimento daquilo que o homem vê ao seu redor. Tu nunca saberás o motivo pelo qual os homens falam ou escutam, mas, na tua busca por respostas, encontrarás o Meu dom especialmente reservado para ti: o Conhecimento.

A ti, CARANGUEJO, atribuo a tarefa de ensinar aos homens o valor da emoção. A minha ideia é que lhes provoques gargalhadas e lágrimas, de modo a que tudo o que eles vejam e sintam faça desabrochar a plenitude na sua alma. Por isso, Eu dou-te o dom da Família, para que a perfeição possa multiplicar-se.

A ti, LEÃO, Eu dou o dom de mostrar a Minha criação em todo o seu esplendor ao resto do mundo. Mas precisas de ter cuidado com o orgulho e lembrares-
-te sempre de que a Criação é Minha, não tua, pois, se te esqueceres disto, os homens irão desprezar-te. Há muita alegria no que eu dou, se for bem feito. Por isso, receberás a dádiva da Honra.

A ti, VIRGEM, peço que empreendas um exame de tudo o que os homens fizerem com a Minha criação. Terás que observar, com perspicácia, os caminhos que eles percorrem e chamares a atenção para os erros cometidos, de modo a que, através de ti, a Minha criação possa ser aperfeiçoada. Para o fazeres, Eu concedo-te o dom da Pureza.

A ti, BALANÇA, atribuo-te a missão de servir, para que o homem se consciencialize dos seus deveres para com os outros, para que ele consiga aprender a usar a cooperação, bem como a capacidade de fazer reflectir as suas acções no seu próximo. Levar-te-ei onde quer que haja discórdia, por isso, concedo-te o dom do Amor.



"Romeu e Julieta", Sir Frank Dicksee (1884)



A ti, ESCORPIÃO, dar-te-ei uma tarefa muito difícil. Terás a capacidade de penetrar a mente dos homens, mas não terás permissão para falares daquilo que lá vires. Muitas vezes te sentirás ferido pelo que vês e, na tua dor, ficarás contra Mim. Verás tanto do homem como do animal e lutarás tão intensamente contra os teus instintos pessoais que te perderás no caminho, mas, quando finalmente te reencontrares, terei para ti o dom supremo da Fidelidade.

A ti, SAGITÁRIO, peço que faças os homens rirem, pois, devido ao contacto com as várias distorções da Minha Ideia, eles tornar-se-ão amargos. Através do riso proporcionarás aos homens a esperança, e por ela voltarás os olhos novamente para Mim. Chegarás a ter muitas vidas, ainda que só por instantes, e, em cada uma dessas vidas que conseguires atingir, conhecerás a inquietação. Dar-te-ei o dom da Abundância infinita , para que te possas expandir o suficiente até conseguires chegar a cada recanto, pois onde houver escuridão, levarás tu a luz.

De ti, CAPRICÓRNIO, quero o suor de tua fronte, para que possas ensinar aos homens o que é o trabalho. Não é fácil a tua tarefa, pois sentirás todas as fainas dos homens sobre teus ombros. Assim, pelo jugo desta carga tão pesada, concedo-te o dom da Responsabilidade.

A ti, AQUÁRIO, atribuo o conceito do Futuro, para que, através de ti, o homem possa ver outras possibilidades. Terás a dor da solidão, pois não te permito individualizar o Meu amor. Para que possas voltar os olhares humanos em direcção a novas possibilidades, Eu concedo-te o dom da Liberdade, de modo a que, livre, possas continuar a servir a humanidade onde quer que ela esteja.

E finalmente, a ti, PEIXES, concedo a tarefa mais difícil de todas. Peço-te que reúnas todas as tristezas dos homens e as tragas de volta até Mim. As tuas lágrimas serão, no fundo, as Minhas lágrimas. A tristeza e o sofrimento, que terás de assimilar, são o resultado das distorções, impostas pelo homem, à Minha Ideia, mas cabe-te a ti levar até ele a compaixão, para que possa tentar de novo. Por esta tarefa, eu concedo-te o dom mais alto de todos: tu serás o único dos Meus doze filhos que Me compreenderá. Mas este dom do Entendimento é só para ti, Peixes, e, quando o tentares espalhar entre os homens, eles não te escutarão.

"Cada um de vós é perfeito, mas não entendereis isso até que os doze sejam Um. ...".


Martin Schulman in http://www.fontedeluz.com/main.php?ver=2&id=504
(texto adaptado)

"PEÇAS DE MUSEU", Alice Vieira





Acabo de sofrer uma das maiores humilhações da minha vida. Ainda por cima aqui no meu bairro, as pessoas a olharem para mim com aquele sorriso de meia boca, género «coitadinha, não liguem».
Ia eu, muito pacificamente pela rua acima, deitar umas cartas no marco do correio, quando oiço estalar uma gargalhada a acompanhar o vozeirão do meu amigo Fernando que ali, em altos berros, para toda a gente ouvir, me reduzia à insignificância de ainda precisar de usar um objecto tão obsoleto e anacrónico (a expressão, obviamente, é dele). Olhei em roda à procura do tal objecto, que eu não descobria em parte nenhuma, mas ele não parava de falar e de rir, que há não sei quanto tempo não via uma pessoa servir-se daquilo, que se tivesse ali uma máquina fotográfica até registava o momento, se eu não sabia que havia uma coisa chamada computador e outra coisa chamada e-mail. E ria. E ria. E as pessoas passavam, olhavam, e riam com ele, e eu ali, finalmente a perceber que era do pobre marco do correio que ele falava.
Lembrei-me, então, de outra vez em que uma coisa semelhante se tinha passado comigo, embora não tão ostensivamente humilhante, coisa bem mais pacata e silenciosa. Estava nessa altura de férias no Luso, a tentar escrever alguma coisa à mesa do café. Faltou-me a tinta e rapo de um tinteiro pequeno que tinha acabado de comprar e, logo ali, encho a caneta. É então que uma das empregadas se especa à minha frente, de mãos espalmadas na barriga, e murmura: «Jasus! Desde o tempo da minha escola primária que eu não via uma pes¬soa a fazer isso!»
Pois é. Eu escrevo cartas. À mão. Com caneta. Com tinta. E – o que ainda torna tudo muito pior – gosto muito. E tenho muita pena que esse prazer se esteja a perder. Às vezes penso que o progresso e os avanços (tecnológicos e não só) estão a fazer desaparecer alguns dos grandes prazeres da nossa vida. Para já, a enorme loucura da pressa com que sempre andamos fez-nos perder o prazer de ter tempo para perder tempo.
Come-se em pé no balcão da esquina, e a correr, porque atrás de nós estão mais dois ou três à espera do lugar.
E o pão que comemos não sabe a pão, feito à pressão naquelas casas que substituíram as honradas padarias e se chamam «boutiques do pão».
E a maçã que comemos não sabe a maçã, feita em estufas, toda do mesmo tamanho e com aquele aspecto que até parece que saiu da história da Branca de Neve, e onde nenhum bicho entra, porque o bicho é esperto e nós não.
E depois há o telemóvel para resolvermos negócios enquanto estamos a atravessar o passeio, para não perdermos alguns minutos, e quando nos enfiamos no comboio nem sequer olhamos para a paisagem porque ligamos imediatamente o nosso PC portátil, e fazemos da carruagem a extensão do nosso escritório, perdendo todo o prazer da viagem.
E escrever cartas. O prazer de tocar no papel, de sentir o aparo deslizar, de saborear as palavras que se vão alinhando, o prazer de escrever cartas de amor ridículas, cartas de adeus desesperadas, cartas banais da pequena intriga familiar, cartas enormes como as que escrevíamos na nossa adolescência, quando os amigos nos faziam tanta falta e os dias eram desmesuradamente grandes.
E olho para as prateleiras da estante, com aqueles volumes de correspondência de escritores, que sabe tão bem ler, e penso que tudo isso vai acabar também, e as cartas, e os selos, e os bilhetes postais, e os marcos-de-
-correio-de-portinha-ao-centro, e as canetas e os tinteiros vão transformar-se muito rapidamente em peças de museu para mostrarmos aos netos dizendo «a avó ainda usou isto», e eles a olharem para nós e a não acreditar.

Vieira, Alice - Pezinhos de Coentrada.
Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2006, pp56-58.